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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Mereço? Posso? Quem merece pode?

“Dinheiro não traz felicidade”, “mas manda comprar”.
Concordo com ambas, discordo de ambas.

“Filhinha de Papai”, de novo, é o apelido que gente preconceituosa me atribuiu várias vezes. Eles com a intenção de agredir. Assumo de bom grado porque tive pai, pelo menos até os primeiros 20 anos de minha vida. Hoje ele não habita mais o planeta Terra e eu não posso mais sentir conforto em seus tranquilos olhinhos azuis, mas não deixei de ser a filhinha do meu papai! Continuo sendo filhinha de minha mamãe e também filhinha do meu irmão mais velho, que sempre foi mais que irmão! Sou filhinha de uma mãe que também não é minha biologicamente, mas que escolheu me fazer filhinha dela também. E como qualquer criança, fui bem amada, mal amada, tive dores, mágoas, doenças...tive família, também! Mas nem sempre quem não tem família deixa de ter família! Família também se cria!

Também fui classe baixa, classe média, classe alta, classe baixa de novo, classe média...não conheço pela minha vivência apenas uma condição: riqueza extrema! Por essa eu não circulei como participante. A esta eu só assisti curiosa, e também acabei percebendo como funciona.

Mas eu não tinha inveja da minha amiguinha cujos pais ganhavam mais dinheiro que os meus e ela podia ter um “walk machine”. Em vez de ficar pensando que a Vanessa era melhor que eu, eu sabia que era apenas uma questão de capitalismo natural. Também nunca me peguei pensando que eu MERECIA o mesmo que ela, então alguém teria que dar um jeito de me dar um “walk machine” também, porque eu era uma criança legal e merecia aquilo! Eu sabia que merecia TUDO nessa vida! Mas que essa vida é capitalista até mesmo antes da criação de moeda (bens para escambo também eram “capital”), então, merecimento meu e condição financeira dos responsáveis por mim eram questões separadas. Bem separadas!
Tudo isso porque eu tive educação? Nem tanto! Esclarecimento dos meus pais e demais adultos em volta era fundamental, claro, mas era só parar para raciocinar! Criancinha, mesmo! Criança raciocina bem! Adulto que esquece disso assim que cresce!

E se o patinete motorizado da Vanessa não estivesse disponível para mim, eu tinha livros! Eu tinha bonecas (a Barbie faltou várias vezes, e daí?). Eu tinha o gato preso na árvore para tentar salvar. Na década de 80 e início de 90, eu tinha condição financeira também para um eventual pão com mortadela (presunto era mais caro! Mortadela dava!) e tubaína! E até hoje eu posso me fartar facilmente com pão com mortadela e tubaína, mas eu tenho pavor profundo de caviar! E nem gosto das comidas mais caras do mundo, não. Cultura? Nem tanto! Também não sou tão chegada a mortadela, mais.
Também usei transporte público. Muito! Até os 8 anos, acompanhada de um maior que eu (nem sempre mais velho do que 18 anos. Uma criança de 12 podia acompanhar uma de 8). Depois, sozinha. Mamãe trabalhava por pelo menos 40 horas semanais. Papai também. Os irmãos, aos 11, também foram para o mercado de trabalho. Eu cheguei ao mercado de trabalho aos 14 anos, devidamente registrada dentro das regras da antiga CLT.

Escola? Tinha! Sempre teve! Nem sempre por perto. Era comum ter que ficar uma hora dentro do ônibus coletivo para chegar para estudar. Não tem vaga no bairro? Faz parte! Vamos para outra escola, onde haja a vaga!

Só que no meio disso tudo aí, meu cabelo é liso, meio louro enquanto criancinha, ainda castanho claro depois de adulta, quando me faço loura com o auxílio da química disponível. Tenho traços pequenos no rosto, tipo “boquinha”, “olhinho”, “narizinho”...portanto?
Portanto virei “filhinha de papai”! No sentido pejorativo, porque hoje pejorativo é palavra de ordem no Brasil! O Brasil se agride se elogiando, atualmente! Agride o igual, agride o diferente, agride porque está agredido!

Criança não pode mais chorar de frustração! Adolescente virou adulto mas tem que ser tratado como criança carente. Carente de quê, pergunto? Amor tem por aí! Pode não ter em casa, mas amor tem aos montes, espalhado por aí!

Depois dos 30 anos, escutei algumas vezes, de algumas pessoas a seguinte máxima “você é uma sobrevivente!”. Acho que sim, afinal, estou viva! Então, sobrevivi mesmo!
Não são TODOS aqui, sobreviventes? Assim que você acordou para um novo dia, pronto! Sobreviveu! A quê? Só VOCÊ sabe!

Então a professora fofa de Língua Portuguesa enche seus olhinhos de lágrimas e afirma “Vocês não são suas notas! Vocês são mais que isso!”, depois completa “vocês são vítimas do sistema!”.
Continuo achando a senhora uma fofa, professora, mas se estamos todos no mesmo “sistema”, a senhora também não é vítima? Porque a senhora mora num local bonito e tem dinheiro para pagar um luxo ou outro, o sistema deixa de agredi-la?

O sistema é o mesmo para todos! Estamos separados nele por nossas próprias crenças, mas ele é comum. E o possível escravo chinês está inserido no mesmo sistema que eu, a “livre” Filhinha de Papai brasileira! Ele também mora no planeta Terra!
Mas agora no Brasil é um tal de “eu mereço”, “aquele merece”...merece, merece, merece...Tá! E por isso é OBRIGADO a obter?

Tem que distribuir a renda! Tem? Tem mesmo? Alguém conhece alguém que tenha estudado muito durante muitos anos, trabalhado muito durante um bom tempo e esteja sem renda? Pode estar, porque tem também quem faça tudo isso e coloque filho no mundo mais rápido que coelho! E para ter 6 filhos no mundo, hoje em dia, tem que ter 6 fontes de renda, mesmo! Ah! Mas 6 empregos de 40 horas semanais ninguém aguenta, né? Então, que tal parar de reclamar que você tá pobre por causa do governo e dar uma olhadinha para o lado e avaliar se você tinha o direito de botar um time de futebol no planeta? E a carga tributária que a renda paga? Ah! Quando você se sente mais pobre que o vizinho você imediatamente esquece que ele paga mais imposto que você por isso! Seu lance é enfiar o dedo na cara dele porque ele "merece" seu dedo!

O governo sempre foi corrupto! O ser humano é corrupto! Corrompe-se assim que aprende a falar! Se criança sabe manipular adulto, por que acreditar que somos todos puros e bons? Somos todos interesseiros! Do cachorro que tem interesse em comer, ao humano que tem interesse em PODER!

Agora, por que cargas d´água as crianças de hoje são melhores que as de ontem e “merecem” e só merecem mais e mais e mais...
Só não se merece mais passar por uma dificuldade nessa vida? Aí é culpa do governo? Do tal do "sistema"?

Desde 1988, no mínimo, a culpa te ter o governo que MERECE é SUA, brasileiro como eu! Seja você mais, menos, igual ou qualquer coisa de humano!


Cansada de merecimento,

Filhinha de Papai